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atelier de domesticação de demónios

caderno de variações sobre dores em dó menor, por O Marquês. 

11.11.09


café central planeta, i. elas inventam, não sei que prazer é que isso lhes dá, mas o mal que me desejam e que te desejam há-de cair-lhes em cima, delas, dos filhos e até dos netos. elas pensam que podem fazer o que quiserem, que nada lhes acontece. tu não sabes a metade, para mim é em chávena escaldada, se faz favor, tu não sabes a metade, elas fartaram-se de gozar contigo, com os teus filhos, com o teu marido. isso não sei. se elas fumassem, a boca delas havia de cheirar e devia notar-se nos dentes. pois não, pois não, são umas porcas.

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30.9.09


apólogos de Pascal, ii. votei as primeiras vezes que esse direito esteve disponível para mim. fiz parte do colégio sufragador, votei com implicação e entusiasmo. usei uma esferográfica bic cristal de tinta vermelha. não bastava fazer uma marca, senti que era necessário mais, fazer diferente, fazer a diferença. depois decidi fazer uma experiência, apurar em que medida o meu voto era relevante. constatei que nenhuma diferença fazia, nada acrescentava ou retirava ao acontecido. ou seja, o resultado eleitoral não era afectado em proporção significativa pelo meu voto ou pela minha abstenção. daí em diante comecei a esquecer-me de ir votar. e apercebi-me que uma cruz no boletim de voto, uma cruz apenas, não permitia expressar-me conforme a minha vontade. Jesus suportou uma cruz, só uma, padeceu nela, mas isso foi há muito tempo. agora os totos da santa casa da misericórdia de lisboa permitem várias cruzes e combinações. há quem diga que isso aumenta as probabilidades de acerto. creio que não é esse o problema. o problema é de expressão, de dor. uma cruz é pouco.

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16.9.09


apólogos de Pascal, i. creio serem necessárias poucas palavras para nos entendermos. somos superfície e, neste sentido, compatíveis. quando dizemos sim, sim significa sim. quando dizemos não, não significa não. quando dizemos talvez, talvez significa contingência e lidamos relativamente bem com as contingências. ao contrário, as mulheres são profundas. nelas as palavras não têm necessariamente o mesmo sentido. existem no fundo delas e a comunicação é mais complexa, interessante, o que não quer dizer inteligente. nelas as palavras obedecem a um arbítrio e a uma circunstância de género. muitas vezes as palavras delas são o choque entre o que declaram e o que desejam. pouco importam as palavras, podemos dizer. ouvimos e falamos mas não é tanto o diálogo que nos detém ou concorda. elas sofrem de outro modo, são tortuosas, sofrem para fazer sofrer, sofrem para sentirem o sofrimento dos outros. neste pormenor, o da dor, as mulheres são mais inteligentes do que os homens. elas estouram de gozo quando sugerem a dor e a experimentam sugerida, porque não lhes dói. não são perversas, não se pode dizer que sejam perversas, a natureza fê-las assim. é tão só isto, elas gostam de complicar as palavras. é o que mais sofremos.

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2.9.09


cardiopatias, i. o amor é uma coisa que. o estrépito de dois disparos consecutivos interrompeu-lhe a frase. contraído no chão, com as mãos encontradas com o peito, de onde escoava o calor que tinha no corpo, ele sentiu o perfume da pólvora continuado no quarto. mas quem é que te disse que o amor é uma coisa?, questionou-o ela, deixando cair uma rosa escarlate junto ao corpo jacente. duas pétalas destacaram-se da flor.

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29.7.09


a Anália do centro de contabilidade. a minha incapacidade de ser feliz não me perturba ou dilacera. sei o que é a morte e, testemunho, não é o mistério que julgava. abundam os cadáveres e, por todos, todos os anos há um dia de finados. as festas não me atraem ou comovem. a cocaína faz-me eufórica e no dia seguinte sinto vergonha e tenho dificuldade em classificar as notas de lançamento conforme o plano oficial de contas. até já aconteceu sentir vontade de matar quem ri do meu comportamento na véspera. já aconteceu. as pessoas tristes matam mais devagar.

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24.6.09


Ludovico, o prometido dos outeiros. um rapaz às direitas, um homem sério, é o que dizem dele. ele é assim. e não é assim de alvor recente. saiba-se que ele trepou a ladeira da vida por si, sem amparo ou obséquios de parentes. e que reconhece-se-lhe honra e virtude na trajectória e no presente. é um filho da terra, agora crescido. que fosse chegado aos que mandam e que com o tempo e as marcas do destino feito pelo nascimento se tenha feito um desses que mandam revela pouco dele. alguém teria que cumprir tal missão, de mandante, pelo que, sendo honrado e virtuoso, antes ele chamado para o ofício da autoridade do que outra ou outro menos recomendável. que hão em abundância. poderia ser alguém conivente com desatinos e desmandos do chefe ou complacente com isso. poderia ser alguém habituado aos jogos de influência, às manivérsias administrativas - que é o poder dos sentados -, com a tentação de tirar benefícios num plano das vantagens que tivesse em outro - que é o poder dos arrivistas. poderia ser alguém que em circunstâncias determinadas encarnasse interesses contraditórios e não se incomodasse com o facto. poderia ser alguém que representasse os interesses de uma parte pública em caso em que houvesse interesses de parte particular que ele representasse também – e não tão mal. poderia ser alguém que, por conta da sua responsabilidade directiva numa agremiação de recreio, recebesse patrocínios de oficinas e lojas que, ao mesmo tempo, fornecessem ou prestassem serviços ao couto de cuja comissão ele fizesse parte ou amparos de gente abastada e de negócios dependente e expectante da emissão de alvará ou licença por esse mesmo couto. poderia ser alguém que tratássemos por tu e que pudéssemos envergonhar, mostrando-lhe que, por haver informação sobeja sobre ele em arquivo, sabemos que não é e não pode ser diferente dos outros, com quem se misturou, em honra e virtude venais. ele, o morgadinho prometido, que deixou de ser guarda-redes e já foi guarda-livros.

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17.6.09


ainda o Hipólito do centro de sondagens. não é uma questão de vida ou morte, é uma questão de honra. como o dinheiro e a força, mais do que um factor de distinção, o estatuto é um factor de anestesia social. a honorabilidade e o reconhecimento livram as pessoas de si, isentam-nas da miséria e até sensação da miséria própria. margens de erro e intervalos de confiança são parâmetros estatísticos. aconselho-te a esquecê-los por alguns instantes. cinge-te à evidência. não tires ilações, não faças extrapolações. entende-me como juiz do mérito profissional teu. neste momento não posso ser mais sincero contigo, recomendo-te estupidez e descontracção natural. a política é a vida de muita gente, as projecções com base em sondagens também. escolhe um dedo. escolhendo um dedo, ele há-de escolher uma mão, um braço, uma sequência determinada. eu não jogo com probabilidades, proponho consequências. por isso escolhe com cuidado. ele transpirava diante do outro. havia percebido que sobre a bancada estava disposta uma panóplia de ferramentas, algumas das quais ele desconhecia o serviço que permitiam. escolhe um dedo, o outro insistiu a ordem. esse?, escolha boa. na circunstância qualquer dedo teria sido escolha boa. o compasso cardíaco dele acelerou. agora escolhe outra vez, o alicate? ou o martelo? o outro pegou o martelo, passou-o diante dele e bateu-o na bancada. o alicate? pela escolha que fizeste, deduzo que não sejas comunista. a sala era lúgubre, própria para a cena. uma telefonia de válvulas soltava a emissão regular de uma estação de rádio em frequência modulada. (i can’t get no) satisfaction, a canção que se ouvia, parecia ressoar-lhe nos tímpanos. um foco de luz branca incidia-lhe nos olhos. os braços dele estavam suspensos e esticados por tensores. um cabo de aço rasgava-lhe a carne dos pulsos. ele sentia ardor, apesar da dormência dos membros. ofuscado, não conseguia ver as suas extremidades. sentia apenas a força que o puxava. o outro pousou o martelo, agarrou o alicate e, atrás da luz, um dó li tá, começou a toada, batendo as maxilas da ferramenta, indiferente à escolha do dedo que ele tinha feito.

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3.6.09


o Hipólito do centro de sondagens. julgo que não, aconteceu tudo de repente, disse ele, há coisas que acontecem assim, sem sabermos o motivo delas. a posteriori somos todos heróis, conhecemos a trama e o desenlace, o futuro já não é o mistério que foi. não devemos confundir anarquia com anomia, propôs ela, e, do mesmo modo, não devemos iludir a hipótese da contingência, a força da contingência. quem é Esch? para coisas mais simples uso o excel, serve perfeitamente, explicou ele. a tragédia não podia ter sido evitada.

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27.5.09


a Licínia da segurança social. ela despiu-se. a minha paixão é estrato lidl, barata. se queres saco para a levar, pagas, disse ele. ela pagou o preço combinado. ele usou preservativo. o orgasmo foi precipitado. ela não gostou. dispender meio mês de salário para quase nada irritou-a. por não haver livro de reclamações, ela saltou sobre o abdómen dele, calçada com sapatos de salto alto. e exclamou sai vinho da tua barriga, quando, já em equilíbrio esforçado, pisava a flacidez e o conteúdo do escroto dele.

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20.5.09


o Bráulio da lavandaria. ouviu os passos, o toque de saltos altos na calçada. as mãos dele começaram a transpirar, o vibratto cardíaco intensificou-se. os passos aproximavam-se, sugerindo um andar lânguido, de passerelle, batido na pedra. ele sentia-se um território íntegro, uma biografia a crescer. advinhando a oportunidade, percebeu a compulsão da língua. no flanco oposto da esquina de onde se prenunciavam os passos, saboreava já a calidez dos trinta e sete graus centígrados, a hemoglobina vertida nos lábios. naquela noite, não obstante a menstruação que era capaz de cheirar, não haveria de lavar lençóis.

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13.5.09


o sinédrio das abjurações, iv. o poder cai, disse Sztompka, enquanto chafurdava entre mousse de chocolate e vinho e café entornados que tingiam a toalha posta sobre a mesa, o poder não sobe. ou, assim é que é correcto dizer, o poder mantém-se, os poderosos, aqueles que detêm o poder, dominam enquanto dominam e depois caem. não são os subordinados que sobem. Werner ouviu Sorokin a rir. não me parece que tenha sido uma piada. o que ele disse soa-me a verdade, disse Werner, o poder é um malefício necessário. é um jogo, em que uns perdem e outros ganham. o ganho de uns é consequência da perda de outros e não o contrário. Sorokin levantou uma mão e, esquece a política, isto é uma orgia, concentra-te, reagiu. a reflexão política e a discussão que suscita produzem equívocos e dissonâncias, acrescentou Sorokin, separam, dividem, mais do que unem. havia uma mulher deitada sobre o soalho, no meio da sala, untada com gordura do jantar. tinha as mãos emprestadas à masturbação. parecia em agonia. ela diz que ele é o marido ideal, acreditas? aprecia a sua alegria, disse Sorokin, apontando a senhora Sztompka, que entretanto se juntou à outra mulher. agora havia duas mulheres estendidas no chão a beijarem-se e a acariciarem-se reciprocamente. a cena era crua e sensual. isto é grotesco, clamou Sorokin, aplaudindo de pé o que via. não o suficiente, interrompeu-o Werner, que se levantou, brandiu o atiçador de brasas que havia recolhido do rebate junto à lareira e, com o lado do gancho pequeno, arpoou violenta e repetidamente o corpo das mulheres, transformando os gemidos de gozo delas em gritos lancinantes. perante os corpos desfigurados, Werner consertou a melena com a mão esquerda e após arrumou o atiçador no suporte respectivo. é tarde, estou cansado, vou retirar-me. agradeço-te o jantar e o sarau, Sztompka, foi agradável. amanhã continuamos a discussão. iluminado pelas labaredas da lareira, o corpo de Werner cresceu nas paredes, como sombra. ao mesmo tempo, concentrado nos corpos destroçados, Sztompka despejou mais mousse de chocolate e vinho sobre o peito e a camisa. os poderosos caem, repetiu, assobiando uma onomatopeia que sugeria queda, acompanhada por um gesto com o polegar virado para baixo em movimento descendente. Sorokin, ajoelhado e debruçado, lambia os corpos ainda cálidos das mulheres.

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29.4.09


o sinédrio das abjurações, iii. uma mulher nua. o amor é uma personagem triste. é como o socialismo, disse ela, enquanto contemplava os hematomas impressos na carne. a nudez conferia-lhe mais do que presença, conferia-lhe evidência. antes de a tomar de costas para si e de a abraçar, o amante perguntou-lhe e o teu marido? ela cedeu à confiança das mão dele, sentiu os seus seios enconchados aí. emitiu um gemido, não se percebeu se de gozo ou se de dor. os hematomas timbrados no corpo. ele não aliviou as mãos, continuou a manipular-lhe o peito. ele nu também. o meu marido vai demorar, não te preocupes, sossegou-o ela. então ele desviou-lhe o cabelo da nuca, fazendo-o cair sobre o ombro mais distante da sua boca. cheirou-lhe o pescoço, bafejou-o, beijou-o, lambeu-o, deslizou a língua até alcançar e morder-lhe o lóbulo da orelha. após isto ela desarmou o abraço. dobrou-se sobre a cama do filho, assentou as palmas das mãos sobre a colcha e afastou ligeiramente as pernas. ele aproximou-se e, toma o meu punção de carne, encontrou-se com as nádegas dela e além. aguilhoa-me, rogou ela, possantemente. os ruídos lascivos estenderam-se do quarto ao apartamento, enchendo as três assoalhadas. no momento em que ele aliviou o compasso do arremesso dos quadris, ela aproveitou para furtar-se e sair do quarto. ele tentou detê-la. perseguiu-a, tocou-lhe num tornozelo, derrubou-a e desequilibrou-se sobre ela, caindo também no corredor. ela não o rejeitou, não tentou esquivar-se. riu e arrumou o corpo para o acolher dentro de si. tomou-o com os braços e as pernas, puxou-o, beijou-lhe a fronte. e ali mesmo, no chão, ele reiniciou o movimento de investidas e insistiu até sentir o desconforto da posição e largar um suspiro. depois ela levantou-se e, vem, apoiou as mãos na parede, deixando o torso curvado ligeiramente para diante, as pernas abertas e os joelhos flectidos. ele levantou-se e, toma, toma, tornou a infiltrar-se nela. dá-me, dá-me, correspondeu ela. o teu marido vai mesmo demorar?, procurou ele a tranquilidade durante a cópula. vai demorar a eternidade que lhe dei, soltou ela com sarcasmo, ao mesmo tempo que, voltando a cabeça para trás, o encarou sobre o ombro. facto que o entusiasmou mais, Cecília, és uma puta, levando-o a intensificar o ritmo dos embates. ela consentiu-lhe o arrojo, permitiu que ele continuasse a enfiar-se com assomos violentos na carne dela. mas não sou uma ilha sem soberania, disse ela. por causa do suor, uma das suas mãos deslizou na parede, no sentido ascendente, atenuando a inclinação do tronco. não obstante o esgar de esforço, ele não a largou. com a mão esquerda segurava-lhe a anca, com a outra mão agarrava-lhe um ombro. eu faço destinos, a tua eternidade também, acrescentou ela.

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8.4.09


o sinédrio das abjurações, ii. tu, eu. isto é demasiado mana a mano, não é um casting de bocas. por isso não abras os lábios, não os descerres. não quero saber como respiras ou como beijas. também não quero saber o que dizes ou como pronuncias yoknapatawpha. não quero saber se tens dentes cariados ou se há estrelas no céu da tua boca. há vozes e lugares que me fazem sono. prefiro a artilharia pesada, o sangue solto. agora prefiro tudo o que é solto. não demoro demasiado no que é autêntico, não sou dessas, dessas do meridiano. não posso ser dessas. embora o sangue nas mãos me denuncie.

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1.4.09


estrada nacional cento e vinte e dois. estacionei o carro na berma da estrada, carro que foi muitas vezes o altar da nossa paixão e da sua consumação. mudei-me para o banco de trás, para ficar ao teu lado. despertei-te, sacudindo-te o corpo. era já manhã. outros veículos, ligeiros e pesados, circulavam a velocidade alta e faziam-nos estremecer. tu mal acordada, quase despida, eu diante de ti. fiz-te a pergunta porquê? sem querer, menos ainda desejar, a resposta. eu já sabia porquê, não necessitava da tua confirmação. eu tinha visto tudo, eu tinha-te visto. porquê? serviu de pretexto. na verdade, quanto fiz a pergunta já sentia a cartilagem da tua traqueia a falir sob a pressão dos meus polegares. sabia que, como a culpa, a resposta não podia sair de ti. mas, mesmo assim, algo em mim sentiu necessidade de a exigir. as palavras costumavam aproximar-nos, fazer-nos íntimos. talvez tenha sido isto que me fez perguntar-te porquê?, a pergunta simultaneamente da acusação e da sentença.

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11.3.09


o sinédrio das abjurações, i. os nervos estremeceram-lhe. a cerimónia já tinha começado. os lugares com assento estavam ocupados e havia uma fila nos corredores juntos às paredes laterais do templo, que tinham embutidos painéis de azulejo alusivos às estações do calvário. a liturgia da cerimónia era simples, assim como simples era a sua encenação. mulheres à frente, homens atrás, e durante o exercício da oração e da homilia, através de gestos e de metáforas, cada compungido entregava o seu arrependimento e o seu temor à instância da indulgência suma e, em retorno, recebia a absolvição, como se o registo das faltas praticadas por si tivesse sido apagado tanto na sua ficha pessoal quanto na memória comum. porque a cerimónia já tinha começado, foi durante uma pausa do ritual para introspecção que ele avançou pelo corredor central, em direcção ao altar. aí, colocou as mãos sobre as abas do púlpito e, interrompendo o compasso de silêncio, disse eu não tenho propriamente um plano para a salvação, tenho uma alternativa demiúrgica. se fosse deus, eu não teria criado o mundo, não me teria implicado directamente na sua feitura. pelo contrário, teria criado deuses para criarem o mundo, ou seja, teria substabelecido a empreitada da criação a outros. depois, feita a bola, durante o jejum matinal teria urinado sobre ela, de modo a, por chuva ácida e dourada, criar os mares e a ilusão do ouro líquido. e a seguir, para complicar tudo, accionava o autoclismo e ficava a observar o que resultaria de tal caldo primordial. não creio que o mundo feito assim fosse pior do que o nosso, este, que deus nos deu.

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25.2.09


o senhor dr. Medeiros Branquinho. olho os amantes, desfolho-os com conceitos e métodos clínicos, e desejo-lhes o mal que conheço e posso, a doença. não intenciono que morram, intenciono que sofram. quero que tenham outra cor, mais pálida ou amarela, por causa da anemia ou da hepatite, um passe-partout negro e largo em torno dos olhos, os lábios em tom desmaido ou gretados, o cabelo baço ou oleoso e ralo, cáries, rugas e pregas na pele, feridas e cicatrizes visíveis, erupções cutâneas e borbulhas, celulite, varises, fossas cardíacas falíveis, elas com vaginismo e menstruação prolongada e dolorosa, eles com enxaquecas, ressacas, impotência ou ejaculação precoce e mau hálito. as felicidade e saúde alheias entristecem-me. não é por acaso que evito as terapias que confortam ou recuperam os meus pacientes. alegra-me vê-los sofrer. apenas isso me alegra. não era diferente quando ainda estavas casada comigo. então, mesmo ao teu lado, apesar de ti, eu já era feliz. agora continuo.

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18.2.09


o senhor Osório Sottomayor. ele sussura chupa-me, ele grita chupa-me, mas o estado da sua relação com ela não muda, nem para pior nem para melhor. não se entende porquê. ela não é surda e percebe os estímulos. aliás, por prudência, acautelando a eventualidade de lhe assomar uma vontade maior ou qualquer descontrolo, ele arrancou-lhe os dentes para que ela não o mordesse. tenra, tenrinha, chupa-me, sugere-lhe ele ternamente. todavia, ela, nada. suspeita-se que lhe calhou uma criança contemplativa.

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11.2.09


a senhora Veiga Leite. ele dizia aperta e ela apertava. ele dizia agora alivia e ela apertava mais. ele clamava pára, já chega e ela continuava a rodar o roquete. ele gemia suplico-te e ela fingia não ouvir, o que se ouvia eram os trincos do aperto a passar. ele morria e ela foi buscar outro que gostava também de ser apertado.

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4.2.09


o senhor Portela Piedade e o amigo dele que perdeu os sentidos. o corpo procura uma sequência, a necessidade, a natureza, impõe-se-lhe deste modo. estás a falar de droga? julgo que não. espera, não sabes sobre o que é que estás a falar? agora não, não sei sobre o que é que estou a falar, julgo que estou a divagar; estou a divagar, é isso. não te compreendo. e isso é um problema teu ou um problema meu? neste momento creio que é um problema nosso, um problema de comunicação nosso, porque tu estavas a falar e eu estava a ouvir-te atentamente. estás a dizer que eu não sei falar? não, não disse isso. então perdeu-se alguma coisa entre o que eu disse e o que tu ouviste? creio que não, não sou surdo. estás a ver esta bisnaga? estou, claro que estou, não sou cego. ouviu-se um tiro e a respectiva ressonância. e agora?

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28.1.09


o senhor Albuquerque. vamos facilitar as coisas, tu vestes um vestido de noite, eu levo casaco e gravata. acendemos a lareira, encomendamos uma pizza, bebemos vinho de uma garrafa cara. também podemos optar por hamburgueres. big mac é o que preferes, não é? o vinho mantém-se, não abdico do vinho. bebemos café, tu descafeinado, que não sei se é café. vemos um filme, uma comédia romântica, nada de Woody Allen. eu ponho o meu braço sobre os teus ombros. depois conduzo o carro porque sou homem e tu podes chorar porque és mulher e costumas emocionar-te no cinema. eu passo a mão pelo pára-brisas, para o desembaciar, e tu guardas as mãos entre as pernas, como um miúdo envergonhado, por causa do frio. eu ligo a chauffage. fumamos, tu sg lights, eu marlboro - deixei as cigarrilhas. circulamos devagar, espreitamos a lua e os néons da cidade, vemos as montras e as putas encostadas à parede nas esquinas. se tudo correr bem, tu não gritas e eu não te magoo.

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2004/2009 - O Marquês (danado por © sérgio faria).