10.2.10
Miraldino, o relojoeiro (capítulo um). o Miraldino está morto, coitado, foi assassinado. e tu?, como estás? ela não revelou espanto ao ouvir a notícia, olha, porquê?, mato o tempo como posso.
3.2.10
a Natércia da retrosaria. ela regressou passados dois ou três minutos, não mais. havia enxugado as lágrimas e parecia disposta a relevar o comportamento dele. o matrimónio era um sacramento, resolúvel apenas pela morte. podia ser anulado, mas naquele caso não havia motivo abrigado pelos preceitos do direito canónico que permitisse admitir tal hipótese. tão pouco essa eventualidade surgiu alguma vez entre os raciocínios dela. portanto haveria de padecer até que a morte a apartasse dele, conforme ditado pelo arbítrio divino e pelos votos trocados no altar. deves-me respeito, o respeito que, por natureza, as mulheres devem aos homens. para além disso não esqueças que, para o bem e para o mal, casámos em comunhão geral de bens. ela passou as mãos pelo avental e assentou-as na bancada, virada de costas para ele. no rosto dela havia indícios de desistência, não por conformar-se com a situação, mas por admitir que qualquer alternativa seria pior. ela seria falada e apontada como exemplo de mulher fraca, incapaz de suportar o marido e o feitio dele. eram sabidos os problemas dela com o asseio, os miúdos andavam frequentemente encardidos, iam à escola e à catequese assim, e os seus dotes de cozinheira não eram celebrados. a mãe dela até folgou quando o forasteiro se interessou pela filha, tendo-lhe dado licença para que, antes que ele se negasse, algum acidente e a vergonha os obrigasse a juntar. penitenciou-se perante deus por incentivar o deboche da filha, mas, entendia a velha, fazia-o por intenção maior e haveria o altíssimo de, na misericórdia dele sem tamanho, concordar com ela. pior do que ela não ter jeito para cozinhar era ela com aquela idade continuar alheia a homem e, por consequência, nela ninguém pretender verter a semente da espécie. a mãe desejava-a combinada com um homem, qualquer que fosse, para que ela arrumasse a vida. apesar de tarde para a vontade da mãe, o casamento consumou-se e, conforme referido, ela sentiu-se casada e junto dele sob a condição de apenas a morte ser o apartamento de ambos. ele passou um pedaço de pão na borda do prato da sopa. ela virou-se subitamente, cravou o garfo da salada na cara dele, atingindo-lhe o nariz e um dos olhos. a faca de trinchar a carne afundou-a nas costas dele.
27.1.10
o Horácio da agência de viagens. disse com resignação, a violência é um factor constitutivo da vida. mas só depois de muitos anos de missa, de ideologias arrumadas e escatológicas, de figurinhas da disney e de reality shows é que descobrimos que o osso esteve sempre disposto à fractura. é quando já é tarde para a emancipação pela emigração e percebemos que o lugar onde estamos é simultaneamente a partida e o destino da nossa vida. todas as dores da nossa vida concentram-se aí e nesse momento preciso. fomos tristes toda a vida, no mesmo lugar, e a única alegria que tivemos desvanece-se subitamente, mostrando-nos que afinal a tristeza foi sempre o nosso sítio. escondemos e omitimos a vioência para sermos felizes e no fim, exactamente no fim, percebemos que tudo foi fingimento e ali, de onde nunca saímos. é triste, não é?
20.1.10
está como as minhas magnólias. a calçada do passeio estava molhada, o puto com um par de patins em linha calçado avançou lentamente rente aos edifícios. levava preso sob o sovado esquerdo um papelão quase do tamanho dele, dobrado e seguro também pela mão, o que, a par do piso escorregadio, dificultava-lhe o avanço. o puto passou por dois velhos que estavam diante de uma passadeira, passou com cuidado e sorriu. embora parecesse consciente da figura patética dele, a vontade de experimentar e exibir o produto natalício, os patins, era mais forte. virando-se para trás, os velhos largaram um rol de comentários que tinham como motivo e alvo o caralho do cachopo, comentários que foram em crescendo, devia malhar com os cornos no chão, para aprender como é que é a vida. eram comentários de impotência, olha-me bem para aquela merda, sobretudo de impotência, uma tristeza e depois não prestam para trabalhar, mais de impotência do que de incompreensão. o puto prosseguiu com cuidado, amparando-se com a mão livre, a direita, contra a parede, e os velhos continuaram o lamento e a atenção, olha, olha, ainda vai mesmo bater com os cornos no chão. entretanto, depois atravessar a passadeira, passou por eles uma mulher a falar ao telemóvel, referindo-se ao jardim dela. uma puta, disse um dos velhos para o outro, ambos ainda estancados no passeio. o semáforo voltara a ficar vermelho para os peões. o puto já não estava no horizonte, dobrara na esquina mais próxima.
13.1.10
opqrs. padeço demasiado a condição irónica pela qual sou para poder ser optimista, pessimista, quacre ou realista. suicidou-se depois.
6.1.10
a saga de Hermes Taborda. como todas as histórias importantes, esta é curta. o dono daquelas terras regressou e, conforme prerrogativa consuetudinária e as regras escritas em papel na capital, reclamou o direito de posse sobre aquele chão. ouvindo-o, Hermes, ó aí, bonitos, estancou a junta que arrastava o arado. Eva chegou-se ainda mais, pela frente dos semoventes. havia sido atraída pelo barrulho do carro durante a aproximação, vinha a acabar de enxugar as mãos no avental. nada disse. foi Hermes quem falou, daqui só saímos mortos, pela família, ele, a mulher e as duas filhas. não admitia a evicção ou a condição de inquilino. por determinação do proprietário, Eva, Madalena e Alice, estas as duas filhas, foram sepultadas ali na manhã seguinte. a mais nova, Alice, ainda respirava e tinha os olhos abertos quando a terra começou a cair sobre o corpo dela. Hermes foi enterrado depois, também ali, vivo, para que nele demorasse a dúvida sobre se estaria a cumprir-se a sentença que havia afirmado ou se ter-se-ia enganado na asserção da véspera.
30.12.09
remorse code. parte maldita, o amor dela cheira a terebintina e ela não gosta, mas queria gostar, sente que devia gostar, ou, pelo menos, gostava de não sentir-se incomodada com o cheiro.
23.12.09
o amor em tempos de pressa. isto é um caso de fim e limite, um assunto de coito, não de antes. ele tentou-lhe uma carícia, algo que a dispersasse e o isentasse, mas ela evitou-o e, para ti, rapidinha e ejaculação precoce são uma e a mesma coisa, manteve o tom severo e a recriminação, porém não são. continuou assertiva, e não, não, isto não é uma observação sobre o limite de conceitos, sobre definiens e definiendum, é uma observação de medida, mais exactamente de dromologia. ele corou e, mas, Maria, eu sou deus, não sou o senhor de todos os hidráulicos, balbuciou uma alegação. ela permaneceu irredutível, até podes ser o Alfredo marceneiro ou o menino Jesus, não interessa. há coisas que são para demorar. não gosto de acelerados e celerados, o que é que queres que te faça?, não me convêm. cabisbaixo, sem defesa, eu não sou escrava da velocidade, não sou dromocrata. por isso, ele ouviu a sentença, comigo, aguentas, firme e sem pressa, ou escusas de vir.
16.12.09
cerca de meia hora, iii. no escritório. está on, está a gravar. ela e ele arrumaram-se na cena, em posições diante da câmara. eu acho que temos de morrer, ela começou assim a declaração. agora?, ele inquietou-se, não nos podemos precipitar, a morte tem hora certa. ela insistiu, temos de morrer, ser breves na morte, só isso. ele preparou primeiro o corpo, preparou depois o agrafador. ficaram quietos e calados durante seis minutos. acho que já está na hora, na hora da nossa morte, estimou ela, cortando o silêncio. ele testou-a, tens a certeza?, e olhou para o relógio. ela confirmou, tenho, ao mesmo tempo que inclinou a cabeça para diante, até encontrar a fronte com a secretária. ele matou-a, não tanto com os agrafos vinte e quatro seis, normais, que mal penetraram no escalpe dela, quanto com a contundência das pancadas que desferiu. depois, constatando-a inanimada, recusou suicidar-se. virou-se para a câmara, procurou a hipótese de um grande plano e, já estás, disse, já está.
2.12.09
cerca de meia hora, ii. ele tinha a face assente no peito dela, aconchegou a cabeça aí. ela acudiu-o, ao mesmo tempo passou os dedos pelo cabelo dele e disse sinto chover no meu coração. ele procurou outra posição para a cabeça mas acabou por arrumá-la onde estava, estendeu um braço até a um ombro dela para a confortar e confortar-se, e discordou, isso não é possível, eu não estou a chorar. não estarás com azia?
25.11.09
cerca de meia hora, i. o mundo quase a acabar, no céu durava o silêncio que prenuncia o fim. ele inclinado, comprometido no esforço extático. o amor é fluído, disse ela, as emoções são fluídas, os nossos corpos são sólidos e estáticos. apesar da circunstância e do devaneio dela, ele continuou a negar aquela afirmação, vou expelir borras de mim, a contrair o abdómen contra o dela. o mundo quase a acabar. para uma e outro foi a primeira vez, ela ainda com a dor das primícias, apetece-me um cigarro, quando ele rolou o corpo para ficar ao lado dela.
11.11.09
café central planeta, i. elas inventam, não sei que prazer é que isso lhes dá, mas o mal que me desejam e que te desejam há-de cair-lhes em cima, delas, dos filhos e até dos netos. elas pensam que podem fazer o que quiserem, que nada lhes acontece. tu não sabes a metade, para mim é em chávena escaldada, se faz favor, tu não sabes a metade, elas fartaram-se de gozar contigo, com os teus filhos, com o teu marido. isso não sei. se elas fumassem, a boca delas havia de cheirar e devia notar-se nos dentes. pois não, pois não, são umas porcas.
30.9.09
apólogos de Pascal, ii. votei as primeiras vezes que esse direito esteve disponível para mim. fiz parte do colégio sufragador, votei com implicação e entusiasmo. usei uma esferográfica bic cristal de tinta vermelha. não bastava fazer uma marca, senti que era necessário mais, fazer diferente, fazer a diferença. depois decidi fazer uma experiência, apurar em que medida o meu voto era relevante. constatei que nenhuma diferença fazia, nada acrescentava ou retirava ao acontecido. ou seja, o resultado eleitoral não era afectado em proporção significativa pelo meu voto ou pela minha abstenção. daí em diante comecei a esquecer-me de ir votar. e apercebi-me que uma cruz no boletim de voto, uma cruz apenas, não permitia expressar-me conforme a minha vontade. Jesus suportou uma cruz, só uma, padeceu nela, mas isso foi há muito tempo. agora os totos da santa casa da misericórdia de lisboa permitem várias cruzes e combinações. há quem diga que isso aumenta as probabilidades de acerto. creio que não é esse o problema. o problema é de expressão, de dor. uma cruz é pouco.
16.9.09
apólogos de Pascal, i. creio serem necessárias poucas palavras para nos entendermos. somos superfície e, neste sentido, compatíveis. quando dizemos sim, sim significa sim. quando dizemos não, não significa não. quando dizemos talvez, talvez significa contingência e lidamos relativamente bem com as contingências. ao contrário, as mulheres são profundas. nelas as palavras não têm necessariamente o mesmo sentido. existem no fundo delas e a comunicação é mais complexa, interessante, o que não quer dizer inteligente. nelas as palavras obedecem a um arbítrio e a uma circunstância de género. muitas vezes as palavras delas são o choque entre o que declaram e o que desejam. pouco importam as palavras, podemos dizer. ouvimos e falamos mas não é tanto o diálogo que nos detém ou concorda. elas sofrem de outro modo, são tortuosas, sofrem para fazer sofrer, sofrem para sentirem o sofrimento dos outros. neste pormenor, o da dor, as mulheres são mais inteligentes do que os homens. elas estouram de gozo quando sugerem a dor e a experimentam sugerida, porque não lhes dói. não são perversas, não se pode dizer que sejam perversas, a natureza fê-las assim. é tão só isto, elas gostam de complicar as palavras. é o que mais sofremos.
2.9.09
cardiopatias, i. o amor é uma coisa que. o estrépito de dois disparos consecutivos interrompeu-lhe a frase. contraído no chão, com as mãos encontradas com o peito, de onde escoava o calor que tinha no corpo, ele sentiu o perfume da pólvora continuado no quarto. mas quem é que te disse que o amor é uma coisa?, questionou-o ela, deixando cair uma rosa escarlate junto ao corpo jacente. duas pétalas destacaram-se da flor.
29.7.09
a Anália do centro de contabilidade. a minha incapacidade de ser feliz não me perturba ou dilacera. sei o que é a morte e, testemunho, não é o mistério que julgava. abundam os cadáveres e, por todos, todos os anos há um dia de finados. as festas não me atraem ou comovem. a cocaína faz-me eufórica e no dia seguinte sinto vergonha e tenho dificuldade em classificar as notas de lançamento conforme o plano oficial de contas. até já aconteceu sentir vontade de matar quem ri do meu comportamento na véspera. já aconteceu. as pessoas tristes matam mais devagar.
24.6.09
Ludovico, o prometido dos outeiros. um rapaz às direitas, um homem sério, é o que dizem dele. ele é assim. e não é assim de alvor recente. saiba-se que ele trepou a ladeira da vida por si, sem amparo ou obséquios de parentes. e que reconhece-se-lhe honra e virtude na trajectória e no presente. é um filho da terra, agora crescido. que fosse chegado aos que mandam e que com o tempo e as marcas do destino feito pelo nascimento se tenha feito um desses que mandam revela pouco dele. alguém teria que cumprir tal missão, de mandante, pelo que, sendo honrado e virtuoso, antes ele chamado para o ofício da autoridade do que outra ou outro menos recomendável. que hão em abundância. poderia ser alguém conivente com desatinos e desmandos do chefe ou complacente com isso. poderia ser alguém habituado aos jogos de influência, às manivérsias administrativas - que é o poder dos sentados -, com a tentação de tirar benefícios num plano das vantagens que tivesse em outro - que é o poder dos arrivistas. poderia ser alguém que em circunstâncias determinadas encarnasse interesses contraditórios e não se incomodasse com o facto. poderia ser alguém que representasse os interesses de uma parte pública em caso em que houvesse interesses de parte particular que ele representasse também – e não tão mal. poderia ser alguém que, por conta da sua responsabilidade directiva numa agremiação de recreio, recebesse patrocínios de oficinas e lojas que, ao mesmo tempo, fornecessem ou prestassem serviços ao couto de cuja comissão ele fizesse parte ou amparos de gente abastada e de negócios dependente e expectante da emissão de alvará ou licença por esse mesmo couto. poderia ser alguém que tratássemos por tu e que pudéssemos envergonhar, mostrando-lhe que, por haver informação sobeja sobre ele em arquivo, sabemos que não é e não pode ser diferente dos outros, com quem se misturou, em honra e virtude venais. ele, o morgadinho prometido, que deixou de ser guarda-redes e já foi guarda-livros.
17.6.09
ainda o Hipólito do centro de sondagens. não é uma questão de vida ou morte, é uma questão de honra. como o dinheiro e a força, mais do que um factor de distinção, o estatuto é um factor de anestesia social. a honorabilidade e o reconhecimento livram as pessoas de si, isentam-nas da miséria e até sensação da miséria própria. margens de erro e intervalos de confiança são parâmetros estatísticos. aconselho-te a esquecê-los por alguns instantes. cinge-te à evidência. não tires ilações, não faças extrapolações. entende-me como juiz do mérito profissional teu. neste momento não posso ser mais sincero contigo, recomendo-te estupidez e descontracção natural. a política é a vida de muita gente, as projecções com base em sondagens também. escolhe um dedo. escolhendo um dedo, ele há-de escolher uma mão, um braço, uma sequência determinada. eu não jogo com probabilidades, proponho consequências. por isso escolhe com cuidado. ele transpirava diante do outro. havia percebido que sobre a bancada estava disposta uma panóplia de ferramentas, algumas das quais ele desconhecia o serviço que permitiam. escolhe um dedo, o outro insistiu a ordem. esse?, escolha boa. na circunstância qualquer dedo teria sido escolha boa. o compasso cardíaco dele acelerou. agora escolhe outra vez, o alicate? ou o martelo? o outro pegou o martelo, passou-o diante dele e bateu-o na bancada. o alicate? pela escolha que fizeste, deduzo que não sejas comunista. a sala era lúgubre, própria para a cena. uma telefonia de válvulas soltava a emissão regular de uma estação de rádio em frequência modulada. (i can’t get no) satisfaction, a canção que se ouvia, parecia ressoar-lhe nos tímpanos. um foco de luz branca incidia-lhe nos olhos. os braços dele estavam suspensos e esticados por tensores. um cabo de aço rasgava-lhe a carne dos pulsos. ele sentia ardor, apesar da dormência dos membros. ofuscado, não conseguia ver as suas extremidades. sentia apenas a força que o puxava. o outro pousou o martelo, agarrou o alicate e, atrás da luz, um dó li tá, começou a toada, batendo as maxilas da ferramenta, indiferente à escolha do dedo que ele tinha feito.
3.6.09
o Hipólito do centro de sondagens. julgo que não, aconteceu tudo de repente, disse ele, há coisas que acontecem assim, sem sabermos o motivo delas. a posteriori somos todos heróis, conhecemos a trama e o desenlace, o futuro já não é o mistério que foi. não devemos confundir anarquia com anomia, propôs ela, e, do mesmo modo, não devemos iludir a hipótese da contingência, a força da contingência. quem é Esch? para coisas mais simples uso o excel, serve perfeitamente, explicou ele. a tragédia não podia ter sido evitada.
27.5.09
a Licínia da segurança social. ela despiu-se. a minha paixão é estrato lidl, barata. se queres saco para a levar, pagas, disse ele. ela pagou o preço combinado. ele usou preservativo. o orgasmo foi precipitado. ela não gostou. dispender meio mês de salário para quase nada irritou-a. por não haver livro de reclamações, ela saltou sobre o abdómen dele, calçada com sapatos de salto alto. e exclamou sai vinho da tua barriga, quando, já em equilíbrio esforçado, pisava a flacidez e o conteúdo do escroto dele.
2004/2010 - O Marquês (danado por © sérgio faria).
