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atelier de domesticação de demónios

caderno de variações sobre dores em dó menor, por O Marquês. 

22.2.16


órfão Romeu, iii. ele diz que se resume em dois princípios e pronuncia-os no estilo, i don’t do mercy, i don’t do mornings. traduzido de feitio de cão para língua franca, a fanfarra não passará. que sempre passou e passa, apesar dele.

referência

15.2.16


órfão Romeu, ii. há sempre quem insista fazer perguntas, e agora?, que fazer?, ao abismo diante do qual estacionou. expostas assim a ânsia e a dúvida, tal quem não necessita de respostas. necessita apenas de continuar a dar passos em frente.

referência

8.2.16


órfão Romeu, i. não há pélago que não seja simultaneamente espelho.

referência

20.10.15


damnatio memoriæ. a febre não o deixa recordar o primeiro beijo. aconteceu num fim de tarde, princípio de quase tudo, na cozinha de um segundo esquerdo. havia uma garrafa entre ambos, nas mãos dele, e uma mão dela sobre um joelho dele, debaixo da mesa. terá sido bonito, como a paixão permite. agora tudo ainda lhe dói.

referência

31.7.13


pas de deux, xxvi.

quando as coisas esmorecem, caiem.
que acontece?
começa o fim.
não há fim.
não?
criados à semelhança de deus.
isso é o princípio.

já fomos além, aperfeiçoámos a criação.
ultrapassámos o criador?
pode dizer-se que sim.

qual é a velocidade da internet?, a velocidade da libertação.
quero apenas dar sentido à minha vida.
um.
devagar.
um sentido.
pois. um.
a morte é o que dá sentido à vida.

és tu a falar? ou é a ressaca?


o céu é debaixo da terra.
ou em cinza.
ashes to ashes.
funk to funky.

we know major tom’s a junkie.
o isqueiro?
a avalanche está a chegar.
convém ser prático.
está aqui.
o que acontece é apenas o que acontece.
um misterio, não é?
às vezes.


só quero dar um sentido à minha vida.

basta-me um.
ou dois.
sim. ou dois.
ou mais.
não sei.
também não.


está a começar a doer-me a cabeça.
então, nada?
amanhã.
amanhã?
sim.
mas hoje é hoje.
a sério.

está a começar a.

referência

24.7.13


pas de deux, xxv.

onde?
ali.

alguns passos depois no sentido apontado, aqui?
aí.
tens a certeza?
tenho.
absoluta?
não há certeza que não seja isso. absoluta.
não vejo.
abre os olhos, mula,
abre os olhos, estão abertos.
que a carroça vai cega.
não estou a ver.

não disseste aqui?
disse.
enganaste-me.


não.
parece.
parece. mas apenas parece.
parece mais do que parece.
estás enganado.
como estás enganada?
exacto.
como o wile e. coyote?
beep, beep.
cabra. confessas?
nego.
negas?
até à morte.


ele empunhou uma pistola de fulminantes. apontada ao teu coração.
that is my least vulnerable spot.
o fim desse filme é triste.
não mais do que tu.
eu?


sim. ainda estás aí, armado em parvo.
disseste aqui.
percebeste?, armado em parvo, armado em sentido duplo.

é porque já não está aí. esteve.
puta.
beep, beep.
pode ser que te fodas por não saber dançar.

referência

17.7.13


linha de sintra. os joelhos, vêem-se os joelhos sobre o chão frisado do comboio. as meias de rede permitem ver a vermelhidão dos joelhos dela. vê-se também a cabeça a cair e a erguer-se de entre as coxas do homem. este movimento faz lembrar uma cambota, a oscilação sincopada entre os sentidos descendente e ascendente. uma das mãos do homem está sobre a cabeça dela e pressiona-a contra si. um passageiro disfarça, finge que não está a ver o que está a ver. é impossível que ela e ele não percebam que estão a ser vistos. a indiferença de ambos é tão chocante quão o movimento implacável a que a mão do homem a obriga. as mãos dela estão apoiadas nos joelhos dele. parece uma posição de defesa, a submissão combinada com a prevenção. a cena não é repugnante, é estranha, animal e normal. o comboio chia. mal se percebem os movimentos pélvicos dele, nota-se a tensão que tem nas pernas. às vezes levanta a cintura.

referência

22.5.13


quaresmas, iii. desse domínio que guarda a voz, se ainda penso nisso?, tenta-se esquecer mas não se consegue. como as recordações persistem, a memória repete-se até o que é recordado ficar escuro, escuro que ganha espessura com o passar do tempo, tornando a escuridão superlativa. cria-se uma espécie de caixa negra, onde a realidade que se pretendeu esquecer permanece viva. disse viva, não disse arquivada, entendes? o trauma acompanha-nos permanentemente e pode assaltar-nos a qualquer momento através da presença dele. não se vê, sente-se. não se esquece, convive-se com o se quer esquecer, convive-se tão íntima, intensa e arrastadamente, como um bombardeio contínuo, que nos habituamos à dor. não a domesticamos, aceitamo-la, aceitamo-la como parte de nós, como se fosse uma parte nova que acomodamos. morremos com ela e, antes, já não conseguimos ser felizes sem ela.

referência

15.5.13


quaresmas, ii. era tão frequentada por coisas más, fome, tanta que passei, miséria, tanta que tive, que aquilo tudo revoltou-me, como não haveria isso?, não podia ser, não fui nada e criada para viver daquela maneira, de modo que pareceu que então é que as coisas iam para diante e que não tornaria a ter que encontrar-me como me encontrei naquele tempo atrasado. revoltei-me, fui à luta com o alento e o entusiasmo todo de quem está a ver as coisas a poderem melhorar. andei por lá, noites e dias, dias inteiros naquilo, manifestações e assim, outras saídas do género, empenhada no bem que via e que vinha, a reivindicar direitos que não queriam que fossem nossos, pior, que queriam que não fossem nossos, como se o tempo de trás tivesse que durar para sempre da maneira que era. e o meu homem lá na cama, quebrado, coitado, dado ao mal que haveria de o roubar de mim, a sofrer. eu abalava e antes pedia às vizinhas que, se preciso, o acudissem, uma pinga de água, uma migalhita de pão, e elas iam. estava errada, eu ia e não devia deixá-lo ao deus dará, mas era uma força que fazia com que eu precisasse de ir e eu ia, errada, mas ia, até que ao fim e ao cabo tudo acabou. depois da liberdade larga e disparada não houve mão, veio a desorientação, a desorganização, cada um para o seu lado, como é que hei-de explicar?, vamos lá ver se eu consigo, perdeu-se aquela união, a preocupação de uns com os outros, voltámos a arrumar-nos quase ao que era antes, quase, quase, quase o mesmo, consegui explicar-me?, daí a tristeza que me anda no coração, carrego-a no peito, contristo-me por não termos sido capazes de agarrar a chance e termos deixado cair no chão o que estávamos a fazer, tanto passo para diante, tanto avante, e no fim de contas voltámos quase ao antigamente, como se não tivéssemos andado para frente, como se não tivéssemos empurrado as coisas, quase, quase o mesmo, é essa a causa da minha tristeza. fui mais feliz revoltada do que o que sou hoje. a fome e a miséria andam aí outra vez à solta e as pessoas a que calham não têm como defender-se, não conseguem defender-se. é triste, uma tristeza que dói. perder outra vez custa mais do que perder apenas uma vez, com a diferença de que da primeira vez nem sabíamos que tínhamos perdido, o que tínhamos perdido. uma tristeza, digo outra vez.

referência

8.5.13


pas de deux, xxiv.

bebes?
uma ilusão.
com moderação. não faz mal.
faz bem?
traz a felicidade.
uma ilusão.
porém feliz.
até ao momento da ressaca, o preço cruel.
que também é uma ilusão.
como?, se o sentes na carne.
todos os preços são uma ilusão.
não sou marxista.

sei o que sou.
outra ilusão.
não acreditas?
acredito no bourbon. menos no preço certo.
garrafa de jack daniel’s numa mão, bíblia na outra.
a tolerância permite a compatibilidades de ambas.
e ainda mandas pedras.
pequenas, quando posso.
isso não é ser tolerante.
é treino. a virtude faz-se.

sorte que agora há pistolas.

bebes?
(desta vez estendeu-lhe um copo.)
prefiro vodka.
lá está. a simpatia soviética. arranja-se.
esquece. confundes russa e soviética.
arranja-se mesmo.
que é mais ou menos o mesmo que confundir caviar e salada. esquece.
conheço essa inclinação burguesa, a da recusa soberba.

preferes chumbo?
quê?


a pergunta era retórica, pá.

referência

1.5.13


pas de deux, xxiii.

ai, gosto.

mais.
não mordas. cabra.
ai.

ai.

fica.
não posso.
a quaresma já acabou, vá.

até é feriado.
hoje não.
vais ter com ela?
vou.
é sempre a mesma merda. és sempre a mesma merda.
ela é a oficial. tem direito.
e eu?, sou o quê?
a outra.


há uma revolução a acontecer lá fora.
e?
querias que não?
quero é paz e sossego.
as outras vão deixar de ser as outras.
mas não quer dizer que vão passar a ser as oficiais.
não querias que eu fosse?

não querias que eu fosse a tua?, a oficial.

ei, sister love, save my soul, como na canção.
tu e as canções. puta que pariu as canções.
fica.
hoje não.
vou ficar triste.
mais ficarias se eu ficasse.
ficava nada.
ficavas, ficavas, acredita.
não. gosto de ti.
gostas cá. usas-me e sabe-te bem usar-me.
não. nada disso.
puta. não te faças desentendida.
fica.
hoje não. já te disse.
miminhos.
foda-se. está chata.
faz.
não.
a revolução vai apanhar-te por trás. armado em macho. à antiga. vais ver.
vai-te foder.
contigo?, vou já. quero. muito.
puta. larga-me.
por trás.

como te digo.

como te aviso.
hoje não.

referência

24.4.13


pas de deux, xxii.

bom dia.

então?, o gato comeu-te a língua?
qual gato?
já vi que estás com os azeites.
queres o quê?


há uma revolução lá fora, não sei se sabes.
quero que a revolução se foda.
fiz-te algum mal?

fiz-te alguma coisa?
não. isso é o problema.
não te fiz mal? ou não te fiz alguma coisa?
um e outra.
a culpa é tua.
pois é. como sempre.
ontem não quiseste ficar.
e se tivesse ficado?

qual teria sido a diferença?
a que quisesses que tivesse sido.
mais ai, ai, está a doer-me?
estúpido.

és mesmo estúpido.
a revolução é lá fora, não me chateies.

vai ver se lá fora também te dói.

ai, um bocadinho.
para o caralho.
mais vale.

e mais, antes isso do que ser benfiquista.

referência

17.4.13


pas de deux, xxi.

está a doer.
muito?
um bocadinho.

ai.
e agora?
um bocadinho.
antes também era um bocadinho.
ai.

devagarinho.
assim?
sim.
e assim?
um bocadinho. devagarinho.

ai. não.
gostas de mim?
sim.
e agora?
ai.
muito?
um bocadinho.
todo?
ai.
mais?
um bocadinho.

só um bocadinho.

referência

10.4.13


pas de deux, xx.

alto. pára.
estou inocente.
deixa estar. não acredito.
mas.
já fizeste a aposta?

está na hora de escolheres.
o quê?
não é o quê?, é entre o quê?
beija-me.
não.
então passa-me a corda.
ainda não apostaste.
um beijo primeiro.
não.
e se?
será. a tua sorte.
não quero quer seja a minha sorte, tenho azar.

e medo.

fica esta noite. anda.
não.
aqui, nós dois.
só depois.

hoje não.

referência

3.4.13


pas de deux, xix.

estou apenas a perguntar mas julgo que já sabes.
sei o quê?
a pergunta.

diz o teu amor.
vai-te foder.
vou e venho, olha, como um balancé.

coração de pedra.
o caralho.
mais duro que pedra.
diamante, querem ver?
também é pedra.
mas preciosa.
má.
sou, benção exclusiva para ti.

mereces.
que fiz?
promessas.

sim, promessas.

que não cumpriste.
touché, culpado até à última casa.
ainda bem que reconheces.
culpado, não é?, é assim que queres?
não.
queres, queres.

mesmo assim, não desisto de usar a arma do amor.

weapon of love, como na canção.
vai-te foder. outra vez.

hoje não.

referência

27.3.13


quaresmas, i. foi encontrado um texto dactilografado, sem relevância de qualquer ordem, sob o qual estava a assinatura de Émile Jesus. desse texto alguém reteve uma frase, comer bifes todos os dias é spam doutrinário. reteve a frase, não pelo valor filosófico ou pelo valor literário, pela correcção que nela foi introduzida. a palavra doutrinário foi riscada e sobre ela, numa caligrafia irrepreensível, foi escrita a palavra desaustinado. foi este pormenor que fez com que o texto não tivesse sido esquecido e que tal alguém o tenha recordado no momento em que, por ter trinchado um pedaço de carne maior e não o ter mastigado como devia, sufocou. aconteceu na quarta-feira de cinzas.

referência

20.3.13


isto não é matar por amor, vi. isto é apenas um teaser, tanto amor, haveria de dar em quê?, que chegou atrasado. uma ideia. vêem-se as bolhas que a sugerem, arrumadas na direcção do que parece ser uma sombra. também pode ser um vulto. no interior do balão, a bolha maior, está isto. aos quarenta anos, inaugurada na idade que te começa a falir como balzaquiana ou loba, quem és tu?, o que ainda queres ser?, se continuas a precisar de ser. faz-te a morte o que podes continuar, que eu, já não sinto força para dizer que jamais te esquecerei, ainda não te esqueci. e depois, depois de ler-se o balão, fixa-se um poema com o título o sexo, composto só por um verso, faz-te a morte, que, faz-te a morte, é o que alguém repete em voz alta para compreender e acomodar a perda, um amor zombie, que já não existe como continua a existir. prova?, sente-se ainda a dor a desaparecer, como se isso estivesse a começar a acontecer, embora esteja a começar a acontecer outra vez. outra vez. outra vez. outra vez. outra vez. outra vez. outra vez. não é apenas a morte que separa.

referência

13.3.13


matar por amor, v. boa tarde, a saudação grave de quem entrou na taberna. boa tarde?, chuva que deus a dá, grossa e fria, fumo preto por não haver papa e ainda há quem ache que isto é uma boa tarde, resmungou Baltazar. nenhum dos presentes lhe dirigiu a palavra. perceberam-no encharcado e azedo, preferiram ignorá-lo. porém, interessa-me tanto saber quem vai ser o papa como saber qual é a equipa que vai ser campeã na turquia ou na china, era-lhes difícil deixar de encarar aquela presença, ali, naquele dia, como não sendo provocação. não vás na conversa, é o Baltazar, está entornado. para eles, eu sei, era provocação. o direito que Baltazar tivesse de estar ali não era expiação suficiente da culpa que ainda lhe creditavam. há coisas que nunca ficam saldadas, que não podem ser esquecidas.

referência

6.3.13


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(U)

matar por amor, iv. há onze dias Clementina teve um pesadelo que envolveu bois e vacas. ela recorda ter acordado e revelar-se-lhe que as vacas eram malhadas, a branco e preto, e os bois eram lisos, todos pretos. o que a surpreendeu, pois ouvira contar que as realizações oníricas não eram a cores. o branco e o preto que ela vira eram branco e preto autênticos, não eram cores de catálogo de tintas. o preto era lustroso, como se incidisse o sol nele, não era um preto baço, de televisão antiga. o branco tinha tonalidades, não era um branco de cal, com alvura uniforme, era um branco cremoso, às vezes ligeiramente amarelecido, nomeadamente nas manchas das partes mais baixas das vacas. outro elemento do pesadelo que Clementina reteve com impressão mais vincada foi um símbolo, coisa de máquina de escrever, parecia, representação de um bovino. ela ficou de tal modo perturbada que telefonou à irmã e combinou ir visitá-la na semana seguinte, passar uns dias na serra. para dar espairecimento à cabeça, mana, bem preciso, anunciou Clementina a expiação que ia tentar.
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logotipo © Cult of the Dead Cow

referência

27.2.13


matar por amor, iii. dizem que quando se sai de um lugar como aquele, que nos comeu tantos anos, que nos roeu e mastigou demoradamente a alma, costuma lançar-se um olhar para trás, para fazer um balanço e uma promessa de não retorno ali. é mentira. falo por mim, é mentira. saí e não senti necessidade de rever o que já tinha gravado em mim. ainda hoje sinto que os meus olhos têm tatuado dentro a imagem daquelas paredes, dos muros, das grades. sinto que tudo isto permanece imprimido na retina dos meus olhos. é com eles que me mostro e vivo permanentemente a minha culpa. por vezes, isto custa, ó se custa, custa como o caraças, julgo que estou amaldiçoado. mas pouco depois percebo que não. compreendo-me. estás a perceber?, compreendo-me. quando saí não olhei para trás porque não senti necessidade de lavar a culpa. talvez os outros tenham precisão disso, eu não, não tive. tenho noção perfeita do que fiz. fosse hoje, volvido todo este tempo, voltaria a fazer o mesmo. não me arrependo, não me arrependo do que fiz.

referência

2004/2017 - O Marquês (danado por © sérgio faria).